Editoria: Atualidade

29 10 2009
A INDESTRUTÍVEL sacola plástica

 ‘Devemos preservar os recursos naturais e o planeta em que vivemos para as futuras gerações.’ Se você é uma pessoa antenada, já deve ter ouvido essa frase por aí, mas, talvez, ainda não tenha dado conta de que pode, sim, ajudar a salvar o mundo (mesmo sem ser um  ecologista inveterado). Como? Com pequenos gestos, mas, fundamentalmente, bem informado e bem-intencionado. Que tal, ao fazer compras (seja no supermercado, na farmácia, na padaria ou qualquer outro tipo de comércio), optar por substituir as tradicionais sacolas plásticas pelas de pano ou por caixas de papelão na hora de embalar o que levará para casa?

A causa é para lá de justa. Afinal, embora pareçam inofensivas, as sacolas plásticas representam 10% do lixo descartado em rios e lagos no Brasil, e, por ano, chegam à marca de 210 milhões de toneladas despejadas nos corpos hídricos em todo o país. Isso acarreta uma série de problemas ambientais, como a poluição de rios e lagoas, além do entupimento de bueiros nas ruas, o que resulta em freqüentes enchentes. Em tempo: cada sacolinha leva, em média, de 100 a 200 anos para se decompor.

Prova de que os sacos plásticos – embora práticos – são verdadeiros vilões ao entrar em contato com o meio ambiente é que uma nova lei, que visa diminuir o seu  consumo, e, conseqüentemente, a poluição por eles causada, estava sendo encaminhada à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) até o fechamento desta edição do JE. Se aprovada, alei exigirá que os supermercados troquem um quilo de alimento a cada 50 sacos plásticos apresentados pelo consumidor, além de terem de promover campanhas de conscientização a respeito do não uso de sacolas plásticas. O prazo para que as empresas se adaptem à nova lei deverá variar de seis meses a um ano, e, a partir de fevereiro de 2008, será obrigatória a introdução de placas informativas sobre a responsabilidade do plástico na poluição do meio ambiente em todos os caixas de supermercados e nas sacolas plásticas a serem distribuídas.

Crédito: Divulgação

O secretário Carlos Minc prega melhoria na qualidade de vida

Embora tenha sido recentemente proposta (e vetada) no estado de São Paulo, a lei não corre o risco de ser anulada quando estiver em discussão no Rio de Janeiro. É o que garante o secretário de meio ambiente do estado, Carlos Minc, autor do projeto de lei. Ele calcula que circulem no comércio carioca cerca de 1bilhão de sacos plásticos por ano, além de 900 milhões de garrafas pet.

– Podem ocorrer mudanças, sejam acréscimos ou supressões na proposta de lei. Essas emendas devem obedecer à lógica do aprimoramento da proposta. A substituição das sacolas plásticas gera melhoria da qualidade de vida da sociedade e maior proteção dos recursos naturais do planeta – afirma.

Em um ano, serão multados os supermercados que não cumprirem a Lei 3.369/00 (relacionada ao material plástico). A norma obriga os empresários a recolherem 25% do material que produzem para fins de reutilização e reciclagem, além de divulgarem mensagens educativas de preservação. Jorge de Souza, um dos diretores da Federação das Cooperativas de Catadores (Febracom), acredita que pode haver valorização do preço dos sacos, assim como houve com as pet, aumentando a procura do material pelos catadores.

– Com a possível lei, teremos a valorização do material da pet, agora vindo para o saco plástico, a concentração dele será menor e o preço um pouco mais alto – analisa Jorge.

No Rio de Janeiro, o gasto feito com limpeza e dragagem realizadas pela Fundação Superintendência Estadual de Rio se Lagoas (Serla) fica em tomo dos R$15 milhões por ano. Carlos Minc acredita que é preciso gerar maior consciência na população sobre a redução da degradação e poluição do meio ambiente. O uso do material biodegradável auxilia na chamada de atenção para o assunto, além de favorecer a manutenção dos aterros sanitários, dos sistemas de escoamento de águas pluviais e esgotamento sanitário da cidade.

– A neutralização do descarte indiscriminado do plástico na natureza contribui para que a administração desses resíduos seja mais eficaz – diz.

Crédito: Lula Aparicio

Retrato do descaso com a preservação da natureza, o acúmulo de lixo e sacos plásticos é cada vez maior nas grandes cidades (1) ...

Mudança de hábito

A sacola de pano no estilo em que se usava no tempo da vovó foi a solução encontrada pela pedagoga Renata Moraes para diminuir o consumo de sacolas plásticas no seu dia-a-dia. Além da bolsa, Renata tem um carrinho de compras fechado e um engradado, no qual carrega as compras. Renata admite que as pessoas estranham quando ela não aceita a sacola plástica ao comprar algo.

– As pessoas tomam a minha recusa quase como ofensa. Algumas até insistem, mas nos locais que eu freqüento há mais tempo elas já se acostumaram – revela Renata, que começou a evitar o uso das sacolas plásticas há seis anos.

Renata alerta que o formato da bolsa deve ser especial para carregar muito peso sem machucar.

– Não pode ser qualquer bolsa. Eu já havia visto em algumas lojas do Rio, mas nenhuma delas era boa. A bolsa não pode machucar o ombro, por isso encomendei a minha – diz.

Renata elogia a criação da lei que obriga os supermercados a trocar 50 sacolas por um quilo de alimento. Mas diz que só isso não basta.

– A preocupação ambiental não está só nas sacolas. O sistema de coleta não é bom. Não adianta eu separar o lixo reciclável se o lixeiro mistura tudo, no caminhão após recolher. O governo joga a responsabilidade para o consumidor, o poder público tem que ser mais responsável – frisa.

Manguezais, as maiores vítimas

Produzidos através da resina sintética originada do petróleo, os sacos plásticos levam, em média, de 100 a 200 anos para se decompor. O biólogo Mário Moscatelli, que trabalha na região do aterro de Gramacho, acompanha de perto a destruição que os sacos plásticos representam para os manguezais da região e lamenta o uso indiscriminado desse tipo de material.

– O saco plástico é um dos protagonistas da poluição, em virtude de seu uso generalizado por todas as classes sociais. Nosso consumo é genocida e suicida. Acredito que o ser humano só vai tomar jeito de fato quando as coisas fugirem do controle – observa.

Para Moscatelli, a preservação da natureza precisa ser encarada como uma questão de cultura da população. Ele critica o fato de que a maior parte dessa população ainda não esteja habituada a discutir temas ambientais.

– O problema envolve aspectos de natureza cultural e educacional, que levam tempo para serem alterados. Por isso, sou realista e acho que apenas seremos de fato conscientes de nossos discursos ambientalmente corretos quando o planeta dentro de seus mecanismos de homeostase der um basta por tanto desperdício – avalia.

Ecobarreiras e reciclagem

Crédito: Lula Aparicio

... Para evitar isso, Jonas (2) trabalha em uma das cooperativas de catadores de material reciclável, onde Jorge (3) é um dos diretores. Renata mostra o carrinho (4), a bolsa e o engradado (5) que utiliza para substituir as sacolas plásticas após as compras

Jorge de Souza, um dos diretores da Federação das Cooperativas de Catadores (Febracom), trabalha com outros cooperativados no recolhimento de lixo da ecobarreira instalada no Rio Meriti, em Duque de Caxias. O projeto das ecobarreiras, desenvolvido pela Serla, já possui cinco pontos na cidade.

As ecobarreiras formam uma barreira flutuante que impede a passagem do lixo pelos rios e o material recolhido pelas cooperativas é destinado à reciclagem. Junto a outros materiais, o recolhimento do saco plástico gera renda para famílias como a de Jonas de Oliveira. Aos 31anos e, com dois enteados para criar, ele viu no trabalho de reciclagem da cooperativa uma alternativa melhor de vida.

– Eu recolhia material sozinho nas ruas. Era um dinheiro incerto, a falta de emprego faz com que muita gente recolha material nas ruas, a concorrência é grande. Agora, na cooperativa, eu já tenho uma certeza do ganho e – diz o cooperado, que ainda ajudo a natureza aumentou a sua renda em R$300.

NA EUROPA

A Irlanda do Norte foi o primeiro país da Europa a cobrar pelo uso das sacolas, em 2002. O resultado desta iniciativa foi a arrecadação de cerca de 23 milhões de euros para serem investidos em projetos ambientais e uma redução no consumo de 90%. Na Alemanha, a taxa também já é comum e os supermercados vendem e/ou distribuem sacolas permanentes de algodão. Em Londres, o uso das sacolas de pano no lugar das de plástico já virou moda.

 ¤ Esta matéria foi publicada no Jornal da Estácio em outubro de 2007. Texto de Fernanda Mourão.
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