Editoria: Saúde

22 10 2009
OS RISCOS da busca por um corpo perfeito

Símbolo de beleza e elegância na mitologia grega e fenícia, Adônis era considerado o homem perfeito, e, graças aos seus atributos físicos, tomou-se figura mitológica na antiguidade clássica. Sinônimo de virilidade, sua fama perdura até hoje. Prova disso são os jovens que o cultuam e não medem esforços para ter um corpo musculoso. Alguns deles, porém, exageram na dose e tomam-se vítimas da vigorexia, também conhecida como síndrome de Adônis. São pessoas que,por mais que se exercitem, nunca estão satisfeitas com o corpo que têm e se consideram fracas.

Rogério esforça-se na academia: três horas diárias de musculação e recusa de ofertas de emprego para não atrapalhar sua rotina

Rogério esforça-se na academia: três horas diárias de musculação e recusa de ofertas de emprego para não atrapalhar sua rotina

Os sintomas da doença, muitas vezes, sequer são notados, mas o uso excessivo de vitaminas e suplementos alimentares, bem como a implementação de dietas radicais e a obsessão por exercícios físicos são alguns deles. Em tempo: muitos vigoréxicos não admitem o fato de estarem doentes. Quando isso acontece, o tratamento ideal, segundo a psicoterapeuta Vilma Regato, está nas psicoterapias, com possibilidade de uso de medicação para os casos mais graves.

– Às vezes o paciente não se convence que está doente. Os vigoréxicos podem desenvolver problemas hepáticos, insônia, irritabilidade, cansaço, depressão e, se fizerem uso de anabolizantes, perda da libido sexual e câncer de próstata, entre outros problemas – enumera.

Vilma explica que o exagerado padrão de beleza vigente na sociedade e oculto ao corpo contribuem para o desenvolvimento da vigorexia. Até mesmo as mulheres, segundo Vilma, podem desenvolver a doença.

– Mas a proporção é infinitamente menor em relação aos homens, devido à nossa cultura, que rejeita mulheres fortes e masculinizadas – frisa.

Rogério Ferreira, 26 anos, 1,80 metro e 90 quilos, só pensa em malhar. Mas não está satisfeito com o resultado de tanto esforço nas três horas diárias que passa na academia.

– Vejo meu corpo como o de quem começou a malhar há pouco tempo. Se fico um dia sem me exercitar, penso que enfraqueci. Acho que estou doente, mas ainda não me dei conta disso – admite o jovem, que rejeitou ofertas de emprego para não deixar de se dedicar à rotina de exercícios.

– Não ia dar tempo de trabalhar e malhar- explica Rogério, que deixou de sair à noite e jogar futebol para não atrapalhar a rotina de exercícios. Ele admite que chegou a tomar “veneno” (gíria para anabolizante) na busca por um corpo”bombado”.

– Fui parar no hospital com pressão alta e dores musculares – revela Rogério, acrescentando que,desde então,não ingeriu mais anabolizantes.

 Adônis

O COMEÇO

A vigorexia ou síndrome de Adônis (foto) foi pesquisada pela primeira vez em 1990, pelo psiquiatra Harrison Pope, da Universidade de Harvard. Pope descobriu que pessoas (principalmente homens) que fazem musculação diariamente, de modo excessivo, buscam um padrão estético inatingível. Isso os motiva, às vezes, ao uso de anabolizantes e ao consumo exagerado de proteínas para o aumento de massa muscular. Isso ocorre porque os mesmos têm percepção da imagem corporal distorcida, achando-se sempre mais magros ou mais fracos do que são.  

 

Quando o esforço é o começo do fim

A profissional de Educação Física e apresentadora de TV Solange Frazão foi uma das pioneiras a defender a saúde no mundo da malhação. A atividade física, segundo Solange, tem o objetivo de melhorar a qualidade devida, prevenir doenças e, principalmente, proporcionar mais saúde a cada dia. Para Solange,o limite entre o esforço para ter um

Solange critica a prática, sem limites, de exercícios físicos

Solange critica a prática, sem limites, de exercícios físicos

 corpo em forma e a compulsão pelo exercício estão bem próximos.

– Esses limites são bem paralelos. O limite de cada um é o começo para o fim da saúde – ensina.

A apresentadora defende que um corpo com saúde não precisa de artifícios, nem exageros para ser bonito. Cada pessoa tem um biótipo diferente e o equilíbrio nos exercícios torna-se vital. A falta de informação e de um bom acompanhamento podem prejudicar ainda mais o praticante de atividades físicas.

– Ficar muito forte achar que é bonito ou praticar atividades acima do limite de resistência provoca a falta de saúde e muitas vezes até a obsessão- comenta.

Segundo Solange, as mulheres também têm exagerado na busca por um corpo perfeito.

– importante ter equilíbrio e sabedoria. Devemos buscar mais qualidade em nossas vidas, mas fazê-lo de forma leve para sermos felizes.

OPOSTOS

A antropóloga Mirian Goldenberg cita o sociólogo francês Pierre Bourdieu para explicar a cultura que se formou em torno dos corpos masculinos e femininos. Bourdieu afirmou que os homens tendem a se mostrar insatisfeitos com as partes do corpo que consideram “pequenas demais”, enquanto as mulheres dirigem suas críticas às regiões do corpo que lhe parecem” grandes demais”.

         ‘Chego a passar mal de fome’

Portador de deficiência física (paralisia na parte inferior da perna direita), Júlio de Oliveira é o atual campeão nacional de fisiculturismo, categoria especial. Ele não acredita que todos os atletas da modalidade possuam a síndrome de Adônis, mas admite que,em época de competição,fica bem mais rigoroso consigo mesmo.

– Intensifico os exercícios e sigo uma dieta especial. Três dias antes da prova deixo de comer sal e praticamente não bebo água. Chego a passar mal de fome, tenho cãibras e até desmaio. Fico com fixação pelo meu corpo, toda hora me olho no espelho – diz o atleta, acrescentando que o esforço é recompensado durante o tempo de exibição (um minuto e meio) que tem para se apresentar nos campeonatos de fisiculturismo.

Já para o hexacampeão mundial da categoria leve, José Carlos dos Santos, a dedicação ao esporte é importante, mas a saúde deve ser prioridade durante a preparação. Ele treina todos os dias, pela manhã, à tarde e à noite, além de se submeter a uma dieta para ganho muscular. José defende a busca por um corpo saudável.

– O fisiculturista busca o sucesso profissional. O corpo do atleta não é padrão de beleza, é um instrumento de trabalho que nós tentamos usar da melhor forma possível.

Principais sintomas
  • Dificuldade de relaxar a dieta alimentar (geralmente ela é toda voltada para o aumento da massa muscular);
  •  Vergonha do corpo;
  •  Uso excessivo de suplementos, vitaminas e, em alguns casos, anabolizantes;
  • A freqüência à academia é diária e por horas a, fio. Se existe a necessidade da falta, a culpa resultante disso é insuportável;
  • O controle das medidas e do percentual de gordura corporal são constantes;
  • A percepção do corpo muitas vezes é distorcida. A imagem vista é sempre em condição inferior a que realmente possui;
  • Não são raros os casos de lesões musculares por conta dos exageros cometidos, tanto pelos pesos utilizados quanto por repetições;
  •  As amizades são, na sua maioria, com pessoas que freqüentam regularmente uma academia de ginástica pela facilidade dos encontros e, ainda, pela facilidade de assuntos relacionados à malhação.

Fonte: Vilma Regato, psicoterapeuta

¤ Esta matéria foi publicada no Jornal da Estácio em junho de 2007. Texto de Fernanda Mourão.
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