Editoria: Capa

1 10 2009

 ABORTO NA

 ADOLESCÊNCIA

A imagem de lugares obscuros, longínquos e mal conservados geralmente vinculada às clínicas – clandestinas – de aborto em nada corresponde aos endereços encontrados pela reportagem do Jornal da Estácio. Bem estruturadas e com câmeras de vigilância, os atendimentos são feitos em áreas de grande circulação e fácil acesso. A prática do aborto – considerada crime no Brasil (artigo 128, I e II, do Código Penal), exceto em casos de estupro ou de risco de vida para a gestante – pode ser conflitante e traumática para mulheres de todas as idades. Mas, quando a situação é vivida na adolescência, parece piorar.

Segundo o Ministério da Saúde, o problema se tornou a quarta maior causa de mortes no país e o número de mulheres que fazem aborto no Brasil passa de 900 mil por ano (muitas delas abaixo dos 18 anos). Para o diretor do Hospital Pro Matre do Rio de Janeiro, Dr. Luís Guilherme Pessoa, a gravidez precoce é a que apresenta maior risco. Segundo ele, o aborto na faixa etária abaixo dos 16 anos é o mais perigoso. Mesmo assim, frisa, o número, de meninas que engravidam antes dessa idade tem aumentado.

Só na Pro Matre, revela Luís Guilherme, a média de processos de curetagem (raspagem do útero na qual, entre outras finalidades, é possível se fazer um aborto) é de 100 a 150 por mês.

– Dessas curetagens, não temos controle de quantas ocorreram em função de abortos, mas estima-se que o número seja elevado – avalia o médico, acrescentando que um dos grandes problemas do aborto na adolescência é o medo que as adolescentes têm da repressão dos pais, o que as leva, muitas vezes, a interromper a gravidez através de métodos caseiros (chás, remédios) mais perigosos e que resultam em internações de emergência.

– A jovem esconde a gravidez dos pais o máximo possível , o que torna a interrupção tardia mais difícil e com mais riscos. Além disso, adolescentes de camadas mais pobres da sociedade não têm condição financeira para arcar com os custos de um aborto, mesmo em clínicas clandestinas, e buscam “aborteiros” e “curiosos”, o que faz com que o risco de morte cresça muito – frisa Luís Guilherme, para quem os tais “curiosos” são pessoas que não se formaram em medicina, mas que atuam livremente em clínicas clandestinas de aborto.

Liberação gera polêmica

Hoje, aos 28 anos, Márcia (nome fictício) ainda sofre ao se lembrar dos tristes momentos que vivenciou quando, aos 17anos, desempregada, engravidou do namorado de 18 anos, que trabalhava para sustentar, sozinho, a família com quatro integrantes. Márcia entrou em desespero, mas, apoiada pela mãe (única pessoa na família que ficou sabendo da gravidez), decidiu fazer o aborto. Orientada a dizer, inicialmente, que queria fazer uma consulta especial em vez do aborto, ao procurar a clínica teve contato, apenas, com a secretária, que fez muitas perguntas. Em seguida, Márcia voltou para consulta já com os exames pedidos e diz que tudo foi feito de maneira muito discreta.

– Quando procurei a clínica, fiquei muito tempo batendo na porta e tocando a campainha até vir alguém. E só falei com a recepcionista porque se trata de um mercado negro. Ela nem abriu a porta, era desconfiada. No dia em que fui abortar, estava com três meses de gestação. Só havia eu, o médico e a anestesista na clínica. A operação, por método de sucção, durou cinco minutos e pude voltar para a casa no mesmo dia – relata Márcia, que é a favor da liberação do aborto.

 – Tenho amigas que já fizeram aborto, muitas em clínica estilo carniceiro. Uma delas sentiu muita dor, teve sangramento e quase morreu. Quando procurou um hospital, foi maltratada, pois, segundo me disse, o médico sabia que ela havia feito um aborto. Mas o que existe sobre a questão do aborto é hipocrisia. O mercado negro já liberou isso e muita gente faz – diz.

A liberação do aborto, aliás, tem suscitado polêmica ultimamente. Aprovado, este ano, em Portugal, após um plebiscito em que a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez durante as dez primeiras semanas de gestação virou lei, em outros países – como o Brasil – o aborto ainda é considerado crime. A Igreja Católica (na figura do papa Bento 16) o condena. Posições antagônicas que levaram o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defensor da adoção de um plebiscito no Brasil sobre o assunto, a ser criticado (ele considera o tema uma questão de saúde pública e diz que a discussão na sociedade é importante).

– Tenho percebido que as manifestações mais contundentes contra a discussão vêm de homens. Acho que as mulheres precisam falar e serem ouvidas. Se os homens engravidassem, tenho certeza que essa questão teria sido resolvida há muito tempo – frisou o ministro.

Jovens apelam para o Cytotec

 Desesperadas com a gravidez indesejada e ansiosas por interrompê-Ia, muitas adolescentes sequer procuram clínicas de aborto. Apelam para o uso – geralmente incorreto e sem orientação – de medicamentos, chás e são vítimas de sérias complicações de saúde. Muitas, inclusive, morrem por não tomarem os cuidados devidos. Para o diretor do Hospital Pro Matre  do Rio de  Janeiro, Dr. Luís Guilherme Pessoa, os riscos de se usar tais medicamentos e chás são imensos. Ele cita o Cytotec, remédio utilizado para o tratamento de úlcera, mas que se  tomou famoso no mercado negro por seu poder abortivo (faz o útero ter contrações, o que gera sangramento e aborto logo em seguida) como o mais adotado.

-Nós utilizamos o Cytotec, no hospital, para casos especiais, em que exista a necessidade de se adiantar um parto, por exemplo. Só que as pessoas ousam em doses muito altas e têm complicações, podendo até morrer. Já os chás são perigosos, pois misturados com água ou mesmo puros, intoxicam e podem causar doenças  que a pessoa nem imagina – diz o médico, acrescentando que a curetagem e o uso da pílula do dia seguinte (outras formas de interromper uma gravidez) também são perigosas.adolescente gravida_

 – A curetagem é arriscada, pois pode ferir o útero se o médico não tiver cuidado. A pílula do dia seguinte não faz abortar, mas os jovens estão tomando de forma incorreta, ingerindo doses altíssimas sem qualquer controle, o que também faz mal – alerta.

Mariana (nome fictício), 18 anos, é uma das adolescentes que, para interromper a gravidez, – buscou o Cytotec – antes, confessa, ingerira, sem sucesso, chás “naturais” de vários tipos. Ela comprou quatro compridos por R$ 120 cada, mas seu prejuízo poderia ter sido maior.

 – Tive que ir até a Baixada Fluminense para conseguir os comprimidos. Após ingeri-Ios, senti fortes dores. Tentei dormir, mas, duas horas depois, acordei com dores novamente. Fiquei uma hora no banheiro até que senti uma bolha de sangue caindo no vaso. Voltei a dormir, mas, pela manhã, às 7h, acordei novamente com dores e o restante saiu naquela hora. Passei todo o dia deitada, repousando, pois me falaram que eu não podia fazer esforço – diz Mariana, que ficou abalada psicologicamente.

– Fisicamente estava bem, mas, psicologicamente, péssima – frisa Mariana, que optou pelo aborto com medo da reação dos pais e por ter conseguido um bom emprego.

DOIS POR MINUTO

A cada minuto, quase dois abortos clandestinos são realizados no Brasil. Essa é uma estimativa baseada nas internações pós-aborto pelo Sistema Único de Saúde (SUS)e aponta que cerca de um milhão de mulheres interrompem a gravidez por ano no país, enquanto somente duas mil mulheres são submetidas a procedimentos legais.

 

 Diálogo familiar é fundamental

 Medo das conseqüências de gerar um filho, culpa por não ter se prevenido, medo da não aceitação dos pais e de serem abandonadas pelo parceiro são algumas das principais causas que levam as adolescentes à pratica.do aborto. É o que garante a sexóloga Jussania Oliveira, autora do livro Relacionamento, sexo e ejaculação. Segundo Jussania, a falta de diálogo aberto dentro de casa é um dos grandes problemas que o jovem ainda encara. Ela alerta que a conversa entre pais e filhos é essencial para a prevenção não só da gravidez na adolescência, mas, também, de doenças sexualmente transmissíveis. Diz, também, que o fato de os pais jogarem a responsabilidade sobre o tema para as escolas é preocupante.

– Os pais ainda não se sentem completamente à vontade para falar de sexualidade com os filhos. Muitos consideram estar estimulando o início da vida sexual desses jovens, mas transferem essa responsabilidade para a escola. No entanto, as escolas e professores também não foram preparados para esta função – diz.

PRESERVATIVO É POUCO USADO 

As atitudes apressadas e ansiosas dos adolescentes também contribuem, segundo a sexóloga, para o não uso do preservativo, assim como a adoção do “pensamento mágico”, ainda presente na cabeça de muitos jovens, de que as coisas ruins não vão acontecer com eles.

– Muitas vezes, a relação sexual acontece em locais inadequados e horários “apressados”, sem muito tempo e consciência da necessidade do uso do preservativo. A maioria dos jovens sabe citar vários métodos contraceptivos, não só o preservativo, mas, na prática, não usam ou quando muito, usam em “algumas” relações sexuais – diz.

A prevenção através de educação sexual real e efetiva, campanhas de esclarecimento por toda a mídia, educação sexual como matéria curricular obrigatória nas escolas e fácil acesso a métodos contraceptivos, de modo que sejam distribuídos gratuitamente, são algumas medidas que, para Jussania deveriam ser melhor executadas pelos governantes.

– As campanhas informam e eliminam o preconceito. A menina que traz em sua bolsa preservativos ainda é vista com preconceito (por incrível que pareça), sendo rotulada como liberal demais, garota “fácil” – revela Jussania.

REPRESSÃO: OUTRO OBSTÁCULO

 Para ela,o tabu que ainda envolve o sexo é uma repressão que dificulta a melhora e a qualidade da vida sexual não só do adolescente, mas da sociedade como um todo.

-Ter acesso a conteúdo que fale e explique o sexo está ao alcance de todos, mas na prática a sociedade tem muito mais um discurso liberal do que é na realidade – avalia. 

Crime hediondo

Apreensão de Cytotec feita pela PF
Apreensão de Cytotec feita pela PF

Quem falsifica, corrompe ou vende medicamentos sem autorização infringe a Lei 273 do Código Penal  e pode pegar pena de 10 a 15 anos de reclusão. O delegado Marcos Cipriano, da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Saúde Pública, explica tratar-se de crime hediondo.

– O médico que faz o aborto pode pegar de um a quatro anos se tiver o consentimento da gestante. Senão tiver, pode pegar de três a dez anos de prisão. Caso a gestante seja menor de idade, a pena é agravada em um terço – diz Cipriano.

A venda do Cytotec é proibida no Brasil. Apenas hospitais como maternidades têm autorização para o uso. Mas pessoas que vendem o produto clandestinamente desviam o remédio de hospitais ou o trazem do Paraguai.

 
 DENÚNCIA E FLAGRANTE

Se é tão fácil encontrar clínicas que façam aborto, por que a polícia não fecha esses locais? Segundo informações obtidas na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), investigações são feitas com tal finalidade. Existem duas formas de a polícia chegar às clínicas clandestinas: através de denúncia, sendo muito importante a participação da população nesse processo, e de flagrantes, o que, por exigir mais tempo, permite que  informações vazem antes da ação ser concluída e impeçam o seu sucesso.

DEPOIMENTO

 ‘Comecei a gritar e pedir ajuda’

“Aos 15 anos minha menstruação atrasou. Fiz o exame e deu positivo. Desespero. Eu havia engravidado. Não tinha um bom relacionamento com meu pai e não morava com minha mãe. Contei com a ajuda do meu namorado e alguns amigos para tomar a decisão de abortar. Como a venda do Cytotec é proibida,uma amiga minha conseguiu com um farmacêutico conhecido. Comprei quatro comprimidos por R$ 150. Tomei dois e outros doisi ntroduzi na vagina. Eu tinha quatro meses de gravidez quando tomei o remédio junto com um chá de uma erva chamada buchinha do norte(só há pouco tempo tomei conhecimento que ela é muito perigosa). Fui para um passeio da igreja e comecei a passar mal. Eu sentia fortes dores na barriga e uma enorme vontade de gritar de tanta agonia. No retiro passei a noite acordada, com dores, mas não chamei ninguém, pois achei que o aborto fosse ocorrer como uma menstruação. De manhã, ainda com dor, fui ao banheiro. Eu sentia como se tivesse cólicas, só que mais forte. Me sentei no sanitário, senti uma água escorrendo e quando olhei tinha muito sangue e algo pendurado entre minhas pernas. Comecei a gritar e pedir ajuda. As professoras me levaram para o hospital correndo, pois, estava perdendo muito sangue. Não pude fazer a curetagem por ser menor de idade. A assistente social ligou para meu pai, explicou a gravidade do ocorrido e ele autorizou o procedimento. .No final ficou tudo bem e não tive nenhum problema grave. Meu pai me apoiou, afinal era a única coisa a se fazer, já meu namorado me abandonou.”(F., 18anos)

ENTREVISTA/Carmen Barroso, Diretora da Federação Internacional de Planejamento Familiar

‘Nossa sociedade é hipócrita’

Carmen Barroso

Pesquisa feita pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (lPPF, na sigla em inglês) diz que, no Brasil, cerca de 1,4 milhão de abortos são feitos por ano, a maioria clandestinos. A desigualdade social é citada na hora da escolha dos métodos utilizados pelas mulheres: as com melhores condições pagam até R$1.500 em clínicas, as mais pobres compram chás e remédios para abortar em casa. O elevado número de adolescentes que praticam o aborto também preocupa o instituto. A diretora regional do Hemisfério Ocidental da Federação Internacional de Planejamento Familiar, Carmen Barroso, disse, em entrevista ao JE, acreditar que a educação sexual seja o fator determinante para a diminuição da prática do aborto.

 Jornal da Estácio – Qual seria a solução para a diminuição desses índices de abortos ilegais, com foco no adolescente?

Carmen Barroso – Mais importante que tudo é a prevenção: educação sexual em todas as escolas públicas e privadas desde os primeiros anos escolares, com programas que transmitam todos os conhecimentos necessários. Eles devem abrir oportunidades para as novas gerações cultivarem sua auto-estima e discutirem valores e planos de vida para poderem decidir conscientemente quando e com quem querem ter relações, quando e com quem querem ter filhos.

JE – O IPPF acredita que a liberação do aborto seria uma boa solução para diminuir os, altos índices de mortalidade e conseqüências traumáticas pós-aporto?

CB – Sim. Por melhor que sejam os programas de prevenção, sempre haverá um número – muito mais reduzido, é verdade – de gravidezes indesejadas. Algumas destas acabam sendo aceitas e levadas a termo. Mas sempre haverá aquelas que são consideradas intoleráveis, por muitos motivos, e a gravidez será interrompida, quer a lei permita ou não. Se a lei não permite, o aborto será realizado em condições que podem colocar em risco a saúde e a vida da jovem. Com a liberalização das leis, as jovens terão atendimento gratuito nos hospitais públicos e os riscos serão muito reduzidos.

JE – Você acredita que a repressão ao sexo na adolescência, que ainda existe, tem influência sobre o número elevado de adolescentes grávidas?

CB – Nossa sociedade é hipócrita. De um lado, estimulamos a sexualidade por todos os meios, de outro fingimos que ela não existe. O resultado só pode ser confusão na cabeça dos jovens, com muitos resultados danosos, inclusive a gravidez indesejada. E depois ainda temos a impiedade de chamá-Ios de irresponsáveis!

JE – Que conseqüências a liberação do aborto traria para a sociedade brasileira?

CB – Como aconteceu recentemente no México, onde as leis foram liberadas, o mundo não vai acabar. Não vai aumentar o número de abortos, porque está claro que ninguém pratica aborto por esporte. Só o farão aquelas jovens e mulheres que realmente necessitarem, que são as que atualmente já o estão praticando. Também não vai aumentar a promiscuidade, o que é um medo muito comum dos que temem uma “epidemia de sexo”.  Ninguém evita uma relação sexual por que o aborto é restringido.

¤ Esta matéria foi publicada no Jornal da Estácio em agosto de 2007. Fotos de Lula Aparicio e texto de Fernanda Mourão.
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